Considerações
acerca do discurso na escrita e na leitura
Começar a escrever não é fácil, sobretudo
quando não há atenção às coisas que acontecem ao redor. Um texto, por mais
trivial que pareça, pode partir de simples observações do cotidiano. Muito se
erra quando se escreve sobre o que não se sabe ao certo, embora possamos
escrever sobre questões ou dúvidas de qualquer natureza até então não
resolvidas, se tal texto se propõe a isso. O texto deve ser um diálogo entre o
seu autor e seu potencial leitor, logo o redator estabelece esse diálogo que é
por fim instituído por um competente interlocutor, isto é, que busca também
estabelecer esse vínculo intersubjetivo.
Não que o leitor deva ser apenas uma tabula
rasa, receber os escritos de seu interlocutor de forma inocente e dócil. Tal
leitor não se presta a uma realidade tão rica de informações de diversificadas
mídias que não nos servem para informar apenas. Ele pode concordar total,
parcial ou discordar de todo o texto, até porque há embutido nos diversos gêneros
textuais, até mesmo nas áreas das ciências exatas, ideologias várias,
disfarçadas nos discursos dos escritores. O autor, por sua vez, carrega os seus
escritos com sentidos e significados de acordo com a sua formação, com o que
ele acredita, pois ninguém possui um discurso puro, isto é, imparcial.
Imparcialidade essa que a imprensa e o judiciário brasileiro dizem possuir,
apesar de pouca gente acreditar muito nisso, todavia essa discussão fica para
depois...
Há ao longo do texto uma linha
discursiva concernente ao escrever e ao ler. Não à técnica do escrever ou
tampouco a do ler, mas um conselho primeiramente de como ser claro ao escrever
e um conselho de como desconfiar do que se lê. Pode parecer e até ser
redundante, porém essa é a idéia, destacar esses aspectos para falar da noção
de discurso. O linguista Norman Fairclough e seguidores no mundo todo
(inclusive no Brasil) desenvolvem o estudo sobre a Teoria Social do Discurso.
Embora muito conhecido no meio acadêmico, tal estudo é pouco conhecido entre os
leigos, isto reconhecido pelos próprios estudiosos. Já feita à ressalva, o importante
é o conceito de discurso cunhado por Fairclough (2001, p. 90). Para ele “o discurso é uma prática, não apenas de
representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e
construindo o mundo em significado”.
Logo o discurso está inserido e
insere-se em quaisquer gêneros textuais orais ou escritos, mesmo que o
falante/escritor esteja ou não consciente disso ou mesmo o ouvinte/leitor. A
consciência do que se expressa de qualquer interlocutor nos dias de hoje é
indispensável, sobretudo pela imensa quantidade de informações que as pessoas
nem sempre conseguem processar. Em
termos um pouco mais simples, o discurso de cada pessoa está embebido da
ideologia da sua formação moral, ética, cultural, religiosa, teórica, sindical,
entre outras muitas que poderiam constar nesta citação. Todavia o que é
relevante é que o discurso não é apenas aquela fala cerimoniosa de um
aniversariante, ou de um presidente de uma empresa, ou do chefe de uma
instituição pública ou privada, ou tampouco a fala demagógica (ou não) de um
político qualquer. Costuma-se até a pensar no senso comum que o discurso seja
uma falácia, ou seja, mentiras bem ou mal colocadas, o que na verdade é muito
mais culpa dos políticos profissionais.
A menção aos políticos profissionais é
oportuna aqui. Segundo Aristóteles o ser humano é um animal político. E é
político o tempo todo (mediante o uso de seu discurso) com a boa ou com a má
política, se é que existe esta categorização. Somos políticos em casa, no
trabalho, na escola, na igreja em qualquer contexto e em presença de quem quer
que seja. Obviamente as distinções de situações e ouvintes/leitores do nosso
discurso se fazem presentes, às vezes numa comunicação simples a um colega, em
um papo mais sério com parentes ou amigos, concordâncias ou discordâncias com
chefes. Em uma paráfrase de Foulcault não se diz tudo o que quer a quem quer em
qualquer situação. A liberdade é relativa, pois existem demarcações ideológicas
que possuem como marcos os discursos de cada instituição, cultura, comunidade,
etc.
Embora pareça uma constatação um pouco
pessimista, o discurso é um demarcador, porém pode ser atravessado mediante um
discurso contrário, com bases racionais, respeitando as divergências, apesar de
ainda assim poder persistir na ideia de mudança. Fairclough também cunhou um
conceito denominado mudança discursiva. Segundo o linguista (2001, p.127),
determinados entes sociais tentam resolver esses dilemas, os discursos hegemônicos,
ao serem inovadores ou criativos, ao adaptarem-se as convenções existentes de
novas maneiras e assim contribuírem para a mudança discursiva. Ora, isso
aconteceu em diversos momentos da história. Um exemplo clássico é do filósofo
René Descartes, que mesmo advindo da tradição escolástica – pensadores ligados
à igreja católica séc. XVI – divergiu desta para elaborar um novo método (discurso),
que mesmo com alguns aspectos adquiridos durante seus estudos na aludida linha
de pensamento, fundou o que depois seria denominado o discurso cartesiano, isto
é, uma linha teórica “independente”, que influencia até hoje a ciência.
Enfim, para Fairclough (idem) “a mudança envolve formas de
transgressão, cruzamento de fronteiras, tais como a reunião de convenções existentes
em novas combinações, ou a exploração em situações que geralmente as proíbem”. Por
isso, mesmo aquele que escreve/fala ou ele reitera um discurso ao longo do seu
texto, assim fortalecendo as demarcações ideológicas, ou elaborando um discurso
contra-hegemônico desta forma tentando romper barreiras ideológicas impostas a
um leitor/ouvinte inocente ou não. Ou seja, mesmo sem saber ao redigirmos
qualquer texto inserimos nele parte do que somos ou do que acreditamos, logo é
indispensável cada um conhecer a si mesmo para não ser moldado pelo discurso/texto/fala
de outro. A identidade social de cada um é determinada pelo discurso/texto que
este ente social traz consigo, mesmo que ele tente de alguma forma dissuadir,
mentir, mascarar o seu discurso, sempre deixará marcas implícitas ou explícitas. Portanto, o objetivo do autor/falante com seu
discurso é persuadir, ou mesmo até seduzir seus leitores/ouvintes e assim de
alguma forma influenciá-los a respeito do que acredita.
BIBLIOGRAFIA
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Coordenadora
da tradução Izabel Magalhães. – Brasília: Editora Universidade de Brasília,
2001.
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