A difícil percepção dos limites
As mudanças ininterruptas, e até abruptas, proporcionadas pela “pós-modernidade” ou “globalização” ou “modernidade tardia” ou quaisquer expressões cunhadas (tantas que são) com o objetivo de tentar conceituar o que vivemos, talvez conotem as dificuldades que temos nas relações interpessoais. A referência é genérica no que tange as relações como um todo, contudo tem uma origem específica no que se entendia como família antigamente e o que se entende por família nos dias de hoje. A noção mais remota nos dava a ideia de indivíduos unidos pela mesma origem biológica e, sobretudo havia um caráter sacralizado pelos valores culturais herdados, isto é, as pessoas respeitavam, de forma inequívoca, mãe e pai, avós, tios, etc. Acontece que, hoje em dia a noção mostrada por pesquisas de diversas áreas das ciências humanas apresenta a ‘família’ como “aquelas pessoas com que a gente pode contar”. E infelizmente nem a família e nem a escola se prepararam para essa mudança que atingiu-nos em cheio, e com muito mais força os jovens e as crianças.
A referência a nova percepção de família, embora traga consigo algo que pareça a concepção anterior, pelo menos no que concerne às relações entre esses entes ou “parentes”, apenas reflete a “areia movediça” que se transformou o que antes era uma base firme, ou como muitos gostam de dizer “a célula mater da sociedade”. Entretanto a antiga família anda se eximindo da responsabilidade de acompanhar seus filhos, e de maneira deliberada ou inconscientemente, no que é menos doloroso crer.
A sociedade “moderna” exige que não apenas o pai, como também a mãe sejam provedores das famílias. Para tanto, ambos se sujeitam a quarenta horas semanais ou mais em seus trabalhos, o que inviabiliza a relação entre pais, mães e filhos(as). Os filhos, de famílias um pouco mais afortunadas, sentam-se por horas diante de tv’s ou computadores e logo começam a se transformar em pessoas que seus pais desconhecem. Os quartos desses jovens lembram solitárias, em que eles se enclausuram a procura de algo que nem mesmo eles sabem bem o quê, e isso quando eles não buscam uma fuga literal da realidade... aos menos afortunados, menos sorte ainda.
A escola recebe essas crianças e jovens em condições mais ou menos semelhantes e por conta de uma inabilidade institucional, sobretudo em não entender as suas atribuições em relação aos estudantes, acaba por ultrapassar um limite perigoso e tênue. O limite, difícil de estabelecer é: qual o papel da família e qual é o papel da escola na educação das crianças e dos jovens? Em um dos artigos antigos de pedagogia, creio que seja do Dewey, ele cita os pilares da educação que são para ele: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Todos esses fundamentos são trabalhados (ou deviam) na escola, mas a família é que fornece os primeiros valores desse novo ente na sociedade.
A escola é uma ponte da família à sociedade, logo além de preservar os valores éticos e morais daquela pequena comunidade, ela também deve ensinar o respeito à diversidade e como agir na adversidade. Acontece que a família possuía um papel mais ativo na formação dos seus filhos o que não acontece atualmente. É importante ressaltar que a ausência da mãe talvez seja a causa mais preponderante, como também é importante que o pai hoje se responsabilize de uma forma diferente das gerações anteriores. O que interessa é que o sistema “obrigou” a família a delegar as funções de pai e mãe e/ou responsáveis à escola. E estes mesmos pais e mães exaustos, por conta do esforço diário em seus empregos, convenientemente cobram da escola aquilo que lhes parece justo, logo que a instituição se responsabilizou. Justo lhes parece, mas não é.
A escola tem suas obrigações, todas escritas e regulamentadas sob a letra fria da lei, embora o bom senso deva reinar quando se trata da educação dos nossos filhos. Veja bem: nossos filhos. A instituição escolar, além de responsabilizar-se pela educação, deve também proteger seus alunos(as) de possíveis danos físicos, morais e psicológicos ou alertando os responsáveis (que até podem ser mãe ou pai) ou os órgãos públicos competentes.
Entretanto mesmo a escola não conseguirá proteger seus estudantes das fatalidades das nossas perigosas cidades em todos os momentos, a não ser através de uma presença ostensiva o que não é, absolutamente, competência dos educadores, a não ser que estes sejam onipresentes. Claro que há percalços que a instituição educacional pode alertar estudantes e famílias, como perigo do envolvimento com drogas, por exemplo, mas esse alerta tem suas limitações. E tais limitações são perceptíveis para o professor no momento em que ele(a) se encontra em uma encruzilhada que pode ser a seguinte: de um lado uma família ausente ou problemática; do outro a instituição que cobra uma atitude, embora ela mesma tenha suas dúvidas a respeito do que fazer; e enfim o Estado, que em um jogo de “empurra” só aparece quando há bônus, e quando há ônus como em um passe de mágica, é abduzido. Para onde ir?!
O salvacionismo é uma ideologia que o Estado prega de forma disfarçada, também para eximir-se de suas responsabilidades. São até bonitas as atitudes isoladas de cidadãos veiculadas na mídia, bem intencionados, diga-se de passagem, que são voluntários em colégios e ONG’s de todo o Brasil. Todavia aí é que o Estado se coloca, nessa brecha em que de repente ele se torna o protagonista da boa ação, como também desaparece quando lhe é conveniente.
Há trabalhos de naturezas diversas que demandam esforços diferentes, e mesmo a ajuda de responsáveis, mães e pais. Aqueles mesmos que não têm tempo quase nunca. Daí surge uma das divergências entre professoras/professores e família, isto é, o responsável chega a sugerir o fim dos trabalhos em grupo, se o docente não estiver literalmente ao lado de seu filho.
A sociedade “moderna” exige que não apenas o pai, como também a mãe sejam provedores das famílias. Para tanto, ambos se sujeitam a quarenta horas semanais ou mais em seus trabalhos, o que inviabiliza a relação entre pais, mães e filhos(as). Os filhos, de famílias um pouco mais afortunadas, sentam-se por horas diante de tv’s ou computadores e logo começam a se transformar em pessoas que seus pais desconhecem. Os quartos desses jovens lembram solitárias, em que eles se enclausuram a procura de algo que nem mesmo eles sabem bem o quê, e isso quando eles não buscam uma fuga literal da realidade... aos menos afortunados, menos sorte ainda.
A escola recebe essas crianças e jovens em condições mais ou menos semelhantes e por conta de uma inabilidade institucional, sobretudo em não entender as suas atribuições em relação aos estudantes, acaba por ultrapassar um limite perigoso e tênue. O limite, difícil de estabelecer é: qual o papel da família e qual é o papel da escola na educação das crianças e dos jovens? Em um dos artigos antigos de pedagogia, creio que seja do Dewey, ele cita os pilares da educação que são para ele: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Todos esses fundamentos são trabalhados (ou deviam) na escola, mas a família é que fornece os primeiros valores desse novo ente na sociedade.
A escola é uma ponte da família à sociedade, logo além de preservar os valores éticos e morais daquela pequena comunidade, ela também deve ensinar o respeito à diversidade e como agir na adversidade. Acontece que a família possuía um papel mais ativo na formação dos seus filhos o que não acontece atualmente. É importante ressaltar que a ausência da mãe talvez seja a causa mais preponderante, como também é importante que o pai hoje se responsabilize de uma forma diferente das gerações anteriores. O que interessa é que o sistema “obrigou” a família a delegar as funções de pai e mãe e/ou responsáveis à escola. E estes mesmos pais e mães exaustos, por conta do esforço diário em seus empregos, convenientemente cobram da escola aquilo que lhes parece justo, logo que a instituição se responsabilizou. Justo lhes parece, mas não é.
A escola tem suas obrigações, todas escritas e regulamentadas sob a letra fria da lei, embora o bom senso deva reinar quando se trata da educação dos nossos filhos. Veja bem: nossos filhos. A instituição escolar, além de responsabilizar-se pela educação, deve também proteger seus alunos(as) de possíveis danos físicos, morais e psicológicos ou alertando os responsáveis (que até podem ser mãe ou pai) ou os órgãos públicos competentes.
Entretanto mesmo a escola não conseguirá proteger seus estudantes das fatalidades das nossas perigosas cidades em todos os momentos, a não ser através de uma presença ostensiva o que não é, absolutamente, competência dos educadores, a não ser que estes sejam onipresentes. Claro que há percalços que a instituição educacional pode alertar estudantes e famílias, como perigo do envolvimento com drogas, por exemplo, mas esse alerta tem suas limitações. E tais limitações são perceptíveis para o professor no momento em que ele(a) se encontra em uma encruzilhada que pode ser a seguinte: de um lado uma família ausente ou problemática; do outro a instituição que cobra uma atitude, embora ela mesma tenha suas dúvidas a respeito do que fazer; e enfim o Estado, que em um jogo de “empurra” só aparece quando há bônus, e quando há ônus como em um passe de mágica, é abduzido. Para onde ir?!
O salvacionismo é uma ideologia que o Estado prega de forma disfarçada, também para eximir-se de suas responsabilidades. São até bonitas as atitudes isoladas de cidadãos veiculadas na mídia, bem intencionados, diga-se de passagem, que são voluntários em colégios e ONG’s de todo o Brasil. Todavia aí é que o Estado se coloca, nessa brecha em que de repente ele se torna o protagonista da boa ação, como também desaparece quando lhe é conveniente.
Há trabalhos de naturezas diversas que demandam esforços diferentes, e mesmo a ajuda de responsáveis, mães e pais. Aqueles mesmos que não têm tempo quase nunca. Daí surge uma das divergências entre professoras/professores e família, isto é, o responsável chega a sugerir o fim dos trabalhos em grupo, se o docente não estiver literalmente ao lado de seu filho.
Na antiguidade e na idade média a nobreza possuía como um de seus luxos um preceptor, isto é, um professor particular para o seu filho que além de cuidar do ensino das “letras e das matemáticas”, acompanhava-o onde quer que o infante fosse. Dom Pedro II, como era um príncipe, teve um preceptor. Se a ideia do colégio é essa, tendo em vista o nome ser uma a homenagem àquele imperador, seria adequado que o quadro de professores fosse mais numeroso...
Outro problema, que é recorrente, é a burocratização extrema em que vivemos. Alguns administradores dirão que isso é até benéfico, embora isso apenas reflita sim a desvalorização dos educadores, sobretudo na desconfiança da comunidade escolar...
Enfim, as relações interpessoais estão corroídas. Mães, pais, responsáveis e educadores precisam relembrar daquelas concepções de família e de professor(a) dos nossos pais e avós, contudo adaptando-as aos novos conceitos e comportamentos, e certamente com uma maior participação paterna na educação dos(as) filhos(as). E há quem imagine que seja fácil criar um filho? Nunca foi fácil, e talvez sejam os tempos mais difíceis para tal empreendimento...
Desculpem-me a palavra empreendimento, talvez seja o capitalismo, a globalização, a pós-modernidade, a modernidade líquida, o fim da história...
07/10/2008 Cassiano Barra