Estranha interlocução
A madrugada é a grande protagonista do improvável, ou será crível por que é na madrugada que o improvável torna-se provável? Talvez a solidão dos insones transforme-os em narradores imprecisos, pois estar só é perigoso. Naquela noite, os carros seguiam esparsos e pela via, em instantes maiores, ouvia-se o ronco longínquo de uma moto. O apartamento margeava uma pista que ligava uma região periférica ao centro urbano da cidade. Era frio. Estava frio. Não importa a diferença do real com o circunstancial, a cena falava por si.
O medo que as pessoas sentem misturado à sensação boêmia de liberdade é o que as leva às aventuras mais idiotas. Sim, estava lá um homem caído no chão. Ninguém parava. Ninguém pararia. Mas por que parariam? Um vagabundo atirado ao chão. E se tivesse sido agredido, assaltado? Poderia até estar morto...E daí? E a solidariedade, e a humanidade meu Deus, ninguém ajuda?
Dopado desses sentimentos fraternos, ele ligaria pra polícia, pros bombeiros o que fosse... No entanto aquilo não era com ele, o sujeito era só um fodido qualquer, bêbado e desmaiado na beira da pista.
Não, desceria para ajudá-lo se não estivesse com tanto frio e tão bêbado. Desceria, mas não sozinho e estava só. Acho que já falei isso, estar só é perigoso.
O homem enlouquecia, pois, imaginava que via algo ou alguém no chão asfaltado e olhava da sacada do seu apartamento e não se decidia. Uma ânsia abrupta subiu-lhe à boca e desmaiou.
Amanhecia e os ruídos altos de vozes e de automóveis o despertaram. Não sentiu seu corpo e percebeu sua cabeça estatelada no meio fio em frente a um prédio. Apenas sombras resmungavam pragas e rezas e um silêncio desconfortável servindo de amém.