segunda-feira, 28 de março de 2011

Conversa de bêbado já é díficil, agora pense na imaginação do bêbado...

 Estranha interlocução

            A madrugada é a grande protagonista do improvável, ou será crível por que é na madrugada que o improvável torna-se provável? Talvez a solidão dos insones transforme-os em narradores imprecisos, pois estar só é perigoso. Naquela noite, os carros seguiam esparsos e pela via, em instantes maiores, ouvia-se o ronco longínquo de uma moto. O apartamento margeava uma pista que ligava uma região periférica ao centro urbano da cidade. Era frio. Estava frio. Não importa a diferença do real com o circunstancial, a cena falava por si.
            O medo que as pessoas sentem misturado à sensação boêmia de liberdade é o que as leva às aventuras mais idiotas. Sim, estava lá um homem caído no chão. Ninguém parava. Ninguém pararia. Mas por que parariam? Um vagabundo atirado ao chão. E se tivesse sido agredido, assaltado? Poderia até estar morto...E daí? E a solidariedade, e a humanidade meu Deus, ninguém ajuda?
            Dopado desses sentimentos fraternos, ele ligaria pra polícia, pros bombeiros o que fosse... No entanto aquilo não era com ele, o sujeito era só um fodido qualquer, bêbado e desmaiado na beira da pista.
            Não, desceria para ajudá-lo se não estivesse com tanto frio e tão bêbado. Desceria, mas não sozinho e estava só. Acho que já falei isso, estar só é perigoso. 
            O homem enlouquecia, pois, imaginava que via algo ou alguém no chão asfaltado e olhava da sacada do seu apartamento e não se decidia. Uma ânsia abrupta subiu-lhe à boca e desmaiou.


            Amanhecia e os ruídos altos de vozes e de automóveis o despertaram. Não sentiu seu corpo e percebeu sua cabeça estatelada no meio fio em frente a um prédio. Apenas sombras resmungavam pragas e rezas e um silêncio desconfortável servindo de amém. 

terça-feira, 22 de março de 2011

Não sei bem o porquê, mas o que instiga esta cabeça perturbada é o que o cotidiano apresenta de "distorcido" às pessoas chatamente normais...

Classificados


A hesitação nasce na dúvida. Não que necessariamente esta seja sempre a mãe daquela, mas quando o pensamento se acostuma a uma zona de conforto, com olhos de cego e ouvidos de mercador, surpreende-se dormindo em cama de faquir. Estava aquele sujeito enfadado das coisas certas e certamente as suas razões não eram más. Uma pena ele não saber disso. Tinha alguma vontade diferente de trabalho casa, casa trabalho...nada mais. Mensalmente as contas, obrigações, as mentirinhas sociais... Era uma merda! – não diga palavrão – conversava Antônio com seus botões. Mas sentia falta de algo e talvez não soubesse bem o quê.
        Um dia caíra-lhe nas mãos um jornal. Uma página em especial: acompanhantes. Não era supersticioso, mas naquilo um pecado poderia assim se configurar. Tinha que ser prudente. Não imaginava, Antônio Morais, que um nome quase semelhante ao seu lhe chamasse tanto à atenção quanto aquele dos classificados.
        “Antônia Morena, moça simples, gostosa e serena. Faz amor, não faz cena”.
        Aquilo inquietava Antônio. Pensava que sua xará deveria preservar nome tão bonito. Irritou-se. Aquela mulher precisava conhecê-lo para ter ideia do respeito que devia ter com aquele nome bíblico. Ele esclareceria que ela não escarneceria daquele nome santo. Disse isso Antônio, depois do terceiro traçado tomado naquele recinto obscuro em que todo final de tarde parava.    
        A página do classificado, já úmida e gordurosa, evocava imagens confusas naquele sujeito pouco imaginoso e servil, que lhe consolavam e distraíam de uma sensação ruim. Indistinta. Qualquer coisa não estava certa, assim refletiu.
        “Morena tipo cabocla, cabelos escorridos, seios fartos. A Iracema que é só para você”. 
        Sua esposa esperava-lhe. Aquele aparelho chato revigorava a sua memória alterada. –Bosta de telefone! – Entretanto, interessava-lhe mais aquele anúncio, que agora compartilhava com um amigo ocasional que ouvia atentamente a sua trôpega leitura.
        “Sem preconceitos. Homens, mulheres, casais. Ativa ou passiva. Sempre carinhosa”.
        Começava, Antônio, a ficar inquieto com o tal anúncio. Sôfrego, Antônio sentiu sede ao virar seu copo. Seu eventual amigo chegou a lhe pedir o telefone da musa Iracema. – Que inconveniente! – Com uma enfática, porém necessária negativa, fez com que o amigo respeitasse a sua precedência.
        “Sem limites para o amor. Carinhosa para um, dois, três...”.
        O etílico amigo abriu um largo sorriso. Antônio incomodou-se. Virou-se de costas para o seu ouvinte e parou de ler em voz alta. Seu companheiro só o era por interesse. Não aceitaria dividir sua mulher com ninguém.  Agora, Antônia era só sua.
        “Faço strep tease, faço oral e minha especialidade é de quatro”.
        Um clarão de consciência invadiu aquela mente perdida. Coisa boa não poderia ser aquilo. Jesus tocou-lhe. Entardecia quando Antônio chegava à igreja. Antônia o esperava.