AUTOR, COMENTÁRIO E DISCIPLINA: ALGUNS ASPECTOS DE PRESCRIÇÃO N’A ORDEM DO DISCURSO EM FOUCAULT
Ao direcionar-me ao discurso, executo uma ação abstrata, porque pretendo compreender o ato discursivo pensado, por mim ou por outro, de uma maneira por si só enviesada e complexa. Talvez a grande dificuldade de apreender esta abstração seja simplesmente porque o sujeito está contido neste mesmo discurso. E a não aludida, ainda, materialidade discursiva, quando não percebida ou não mencionada, dificulta a compreensão do que seja o discurso. Ele não é/está sem a ideologia. Serei irreverente no uso de uma metáfora para referir-me ao conteúdo discursivo: às vezes a ideologia se assemelha a uma brisa que refresca os cidadãos num verão intenso ou uma ventania fortíssima de uma tempestade que carrega com violência as pessoas. A teoria também porque possui materialidade. O enunciado anterior poderia ser uma epígrafe do meu próprio texto porque pretendo amplificar um discurso que não é meu, mas quero reproduzi-lo porque pretendo defendê-lo para que a recepção dele cause comentários. Refiro-me à Ordem do Discurso de Michel Foucault, tradução de Sampaio. Meu discurso tratará da justificativa e da aplicabilidade contextual de três abstrações mencionadas pelo filósofo no aludido título, que são: autor, comentário e disciplina. Também penso ser relevante dizer que a Ordem do Discurso tratava-se da aula inaugural de Foucault no Collége de France, que foi pronunciada dia dois de dezembro de 1970. Para não ser considerado um sujeito pretensioso ao proferir as sentenças que desejo, necessariamente me valerei de enunciados da autoridade do filósofo, visto que a minha palavra tem pouco prestígio. Porém, mesmo meu discurso, escrito em primeira pessoa, pretende ressoar socialmente.
Como me referi inicialmente a um autor de obras de cunho filosófico que tratou, dentre outros assuntos, do discurso, partirei do conceito por ele proferido sobre autor: “o autor como princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significações, como foco de sua coerência”.(FOUCAULT, p. 26, 1996).
Ao dizer autor, Foucault se refere a um sujeito, que em um determinado contexto, produz seu discurso que é fenômeno daquela sociedade e de outros discursos paralelos (os interdiscursos). O enunciado pode corroborar, enviesar, inverter, desconstruir, reconstruir, estabilizar, estabelecer ou não fazer nada em relação à hegemonia social. Mesmo a paralisia ou o silêncio, diante dos aparelhos ideológicos são atitudes responsivas. Em resumo: o conteúdo deste hipotético discurso pode interferir ou não à hegemonia ideológica, e um aspecto de certa relevância é o sujeito dos enunciados, o autor. É claro que o autor é uma das variáveis a observar e considerar dentro da análise, no entanto é um princípio importante no discurso de Foucault. “O autor é aquele que dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de coerência, sua inserção no real”.(FOUCAULT, p.28, 1996).
Foucault brinca com seu enunciado só porque adotou o mesmo da crítica corrente dos teóricos. Mas há um sentido nisso: é tornar o discurso óbvio. Quem prescreveu o limite da obra (enunciação/discurso) foi o autor, da mesma forma de quem cunhou o conceito de autor prescreveu o que poderia ser entendido como o autor. O que se confirma quando o filósofo reitera seu pensamento com a assertiva seguinte: “Todo esse jogo de diferenças é prescrito pelo autor, tal como recebe de sua época ou tal como ele, por sua vez modifica”.(FOUCAULT, p.29, 1996).
Minha alusão ao comentário ecoa desde o início deste rascunho, mas é porque não quero parecer pretensioso ao misturar enunciados teóricos a enunciados subjetivos. A ordem discursiva deste texto persegue tópicos específicos, como o comentário que faço de outro discurso que não me pertence. A causa da minha inquietação, o que provocou os enunciados que escrevo, foi um comentário que classificou A ordem do discurso como um texto vazio. Ao escolher a primeira pessoa para rascunhar minhas idéias tenciono produzir um discurso discordante da menção de que a obra que havia lido seria “vazia”. Reputo-lhe ser abstrata. Inicialmente, rascunhava melindrado o texto, porque o comentário que ouvi é de uma autoridade e tinha que fazer um discurso cuidadoso porque não se tratava de nada além de pontos de vista distintos. No entanto, o ator social desempenhava um papel importante e o seu discurso tinha, como tem, um peso no microcosmo social em que está inserido.
Retomando o argumento teórico, Foucault entende o comentário como “o desnível entre o texto primeiro e o texto segundo (...)”.(p. 25, 1996). O comentário pode ser compreendido como um eco do discurso primeiro, que tem como objetivo a atualização do mesmo. “O comentário conjura o acaso do discurso fazendo-lhe sua parte: permite-lhe dizer algo além do texto mesmo, mas com a condição de que o texto mesmo seja dito e de certo modo realizado” (Idem).
Se o comentário reatualiza e conjura o texto primeiro (discurso), ele também limita o que pode ser dito a respeito dele. Quando Mário de Andrade (p.129, 2002) resolveu escrever sobre Castro Alves, estrategicamente disse que estava fatigado e queria paz, pois sabia que enfrentaria a cólera dos “donos de Castro Alves”, os quais ele caracterizava medíocres. Implicitamente criticava os intelectuais brasileiros de sua época por meio de seu discurso revisionista da obra do poeta romântico brasileiro. Andrade formulou o seu discurso a partir da limitação dos comentários anteriores, portanto mesmo ao discordar dos enunciados primeiros, ele partiu destes últimos para o concurso de sua opinião. O comentário concorreu para uma mudança no discurso, acrescentando-se que não há uma ruptura total dos discursos anteriores, pois não são apenas de acertos que se estruturam as teorias, críticas, argumentos ou afins (as disciplinas), conforme Foucault.
Ao mencionar teoria, no interior discurso do filósofo abordado, entende-se como um sinônimo de disciplina. Foucault diz que
“(...) uma disciplina não é a soma de tudo o que pode ser dito de verdadeiro sobre alguma coisa; não é nem mesmo o conjunto de tudo o que pode ser aceito, a propósito de um mesmo dado, em virtude de um princípio de coerência ou de sistematicidade” (p.30,2005).
Logo após essa citação (enunciado), o estudioso comenta sobre o discurso histórico da medicina e da botânica. Coerentemente, argumenta sobre o que era considerado valioso para a ciência e perdeu seu valor por conta das descobertas dos erros. Ora, o filósofo menciona a medicina e a botânica, mas poderia mencionar outra disciplina qualquer. O seu interesse era formular a proposição correta a respeito do discurso científico.
O discurso científico ao cristalizar-se na sociedade transforma-se em senso-comum. Basta mencionar o sucesso da psicanálise fundada por Freud em contextos sociais diversos. Há muita gente que fala de “Complexo de Édipo” que nunca leu ou participou de qualquer palestra ou freqüentou uma faculdade para estudar o famoso parricídio e o incesto da tragédia grega. Contudo, atualmente o discurso freudiano é contestado em diversos aspectos por estudiosos. No entanto, na mesma medida em que é defendido nos meios acadêmicos é aceito popularmente. Hipoteticamente, se as proposições contrárias a Freud fossem comprovadas, alguns aspectos do discurso da psicanálise seriam invalidados, ou melhor, discursos contrários à teoria ganhariam consistência. É como se fosse um cabo- de- guerra, cada argumento se arroga “verdadeiro” e tenta ganhar terreno no campo adversário. Contudo, deixando de lado o difuso enunciado metafórico, a disciplina é definida pelo domínio dos objetos que analisa, pelas formulações teóricas que são consideradas verdadeiras, as regras, os conceitos, as técnicas e os instrumentos que, segundo Foucault, são um sistema anônimo à disposição de quem quiser lançar mão dele.
A idéia de disciplina fica flexível quando o estudioso diz que “A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso”. A prescrição do discurso é imposta pela disciplina que extrapola e corrobora com o sentido de teoria. Foucault destaca que a recorrência de comentários (enunciados) de um autor (sujeito) em relação a uma disciplina qualquer pode dar a impressão de uma fonte prolífera de discursos, no entanto esses enunciados são demarcadores ideológicos. Torna o sujeito (autor) do discurso, “dono” da disciplina (discurso científico/ teoria/ dogmas religiosos/ estatutos jurídicos/ crítica etc). Há algum cidadão médio no ocidente que ignore que Sigmund Freud é o “pai” da psicanálise ou que, mesmo indiretamente, não tenha usado o discurso de senso-comum da teoria freudiana? Mesmo inconscientemente os atores sociais são influenciados pelo discurso da psicanálise.
Enfim, reitero a autoridade do discurso de Foucault que venho reatualizar por intermédio do meu comentário. Queria, modestamente, tornar o seu discurso abstrato um pouco “concreto”. Para reafirmar a minha posição diante do discurso do filósofo farei uso da autoridade de enunciados dele novamente: “Sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa”.(p. 09, 1996). Penetrei na ordem discursiva desconhecendo se poderia, se teria autoridade para produzir um comentário sobre alguns princípios inseridos no discurso de Foucault, pois “(...) ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfizer a certas exigências ou se não for qualificado para fazê-lo”.(p. 37, 1996).
Por enquanto o meu rascunho não tomou forma, ele tornar-se-á um discurso de alguma maneira conhecido de acordo com os comentários (discursos/enunciados) que farão a respeito dele e se é coerente com a disciplina, portanto se o autor satisfizer A Ordem do Discurso. Ou, enfim, se à maneira que utilizei os princípios poderei transformá-los em clichês de conversa fiada.
Bibliografia
ANDRADE, Mário de. Aspectos da Literatura Brasileira. 6.ed. Editora Itatiaia,2002.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. 12ª edição: julho de 2005. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1996.