quinta-feira, 20 de março de 2014

Da paranoia coletiva, ou de como deturpar a realidade com fins fascitas

       Tenho lido muita coisa na internet e não há  como não se  assustar da maneira como uma parcela considerável de pessoas se expressa, a despeito do que cada uma interpreta como ideal político-democrático. Ao fazer uso de reducionismos toscos de uma realidade tão complexa como a brasileira, cometem desatinos e insuflam a sanha fascista de maneira deliberada ou não (esperança...). Há de tudo para todos os gostos.
       A mais recente estratégia - não sei se o uso da palavra "recente" estabelece mais ou menos uma novidade em relação ao modus operandi dos ultradireitistas - é tentar fazer colar o slogan da "Revolução de 1964". Os governos militares, com anuência de parte da igreja católica e de uma classe média extremamente conservadora quanto à redistribuição socioeconômica (representada de forma justíssima por uma oligarquia midiática com sua matriz na cidade de São Paulo e Rio de Janeiro), teceram uma narrativa de um ambiente de caos nacional naquela ocasião. O senso comum, àquela altura, reverberara a fofoca que os comunistas comiam criancinhas. Neste terrível ambiente, ignoravam, ou melhor escondiam, por exemplo que João Goulart tinha amplo apoio popular (conforme revelado por documentos de instituto de pesquisa, o IBOPE). Já naquela época escondiam informações e forjavam suicídios, como no caso lamentável de Vladimir Herzog.





       Hoje esta estratégia está mais complicada, pois basta um pouco de disposição para pesquisar que informações deturpadas, imagens de cenas coladas a notícias que não têm referência uma com a outra, discursos de ódio engajados a justificar a violência contra àqueles que não podem se defender, estão um pouco mais difíceis pra colar.
       O ultradireitista é um sujeito engajado em tão somente destruir quaisquer pensamentos progressistas. Para ele, que é um sujeito pertencente a uma casta superior, pessoa acima da média e privilegiado pelo dom da sua inteligência, o pensamento da esquerda lhe ultraja. Tais progressistas, para ele, oferecem espaços para pessoas não pensantes, ignorantes mesmo, que não devem ascender socialmente, pois não sabem se comportar nos aeroportos e shopping's.
        Há algum tempo, uma tal de Sheherazade, leitora de teleprompter, a despeito das pessoas poderem discordar das suas observações, disse que lhe atacavam o direito de se expressar. Falácia. Ela, como eu, e como qualquer pessoa, diz o que quiser dizer. No entanto, em sociedade, a minha liberdade de dizer até invencionices, esbarra em alguns obstáculos. E isso é bom, pois é democrático ao respeitar o outro ser humano. 
       Não posso, por exemplo, alegar que o Papa me roubou (isto é hipotético, camaradas litigantes da linguagem denotativa) e depois que as pessoas apresentarem seus argumentos contrários aos meus, fazer beicinho e dizer que não estão respeitando o meu direito de expressão. Isto é um argumento cretino.  
       Essa moça incitou a violência e não usou meias palavras, quando declarou de forma peremptória, que trinta homens ao prender um jovem negro de quinze anos, com uma tranca de bicicleta passada no seu pescoço, prendendo-lhe a um poste e nu estavam fazendo justiça. E em outro feliz comentário, justificava as "estripulias" de Justin Bieber com uma advertência doce de uma titia, amável com seu pobre menino rico que está "apenas crescendo"...
       Há um outro, de nome Constantino, que com ironia, se diz coxinha e critica a turba que não sabe se comportar em shopping's, pois estes  lhe têm inveja e invejam as patricinhas e mauricinhos. Conforme o indigesto fofinho, há uma etiqueta que a gentalha não aprende. Triste ele não ter percebido ainda, pois obnubilado, não brincou em quintais quando criança, soltava pipas no ventilador e com dieta de macdonald's, certamente nunca virou o pescoço para o lado de fora da vitrine da lanchonete norte-americana. 
  Para não tornar a lista infindável - pois ainda poderia citar malafeios, bolsonetes e felicianos - e sem nenhuma pretensão metodológica e/ou classificatória,  à revelia de vários anjos salvadores, com mensagens advindas do céu da UDN, não poderia deixar o Lobinho(ão) de fora. Ele, com sua pelagem de burguês escovada e tosada, passou a membro notório da teoria da invasão socialista. Sem nenhum traquejo diplomático, sem cátedra universitária de Ciência Política ou coisa que o valha, ganhou a vitrine do Roda Viva. Neste programa de canal público - ainda que alegue outra teoria conspiratória de que não dão espaço nem voz a quem seja de oposição no Brasil - solta as suas ofensas e críticas com o destemor de quem tem anuência dos barões da mídia, tendo ao seu redor jornalistas passivos ao discurso frenético e descabido. Não precisa ponderar nada. Está dispensado desta tola burocracia inventada pela "esquerda caviar", pois não precisa (e não quer) de interlocutor, precisa de ouvidos abertos, prontos para se emprenhar pela retórica do rebelde sem causa alguma. 
                Eu até concordo com a observação do jornalista Boechat, que afirma que democracia não quer dizer que todo mundo tenha de falar as coisas politicamente certinhas, para apenas aparentar ser certinho. Mas crer que seja certo desancar as instituições, tecendo argumentos estapafúrdios como uma possível intervenção militar nos moldes daquela "Revolução de 1964", a ponto de criar um ambiente catastrófico, isso é demais. Ademais, a "Revolução de 1964", embora os milicos e as viúvas da Ditadura afirmem que aconteceu dia 31 de março, na verdade ocorreu dia 1º de abril daquele ano. Dia da mentira histórica brasileira, que tentam até hoje fazer colar que o regime de exceção era para salvar a democracia. Esses fascistas são uns fanfarrões mesmo!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O coxinha-reaça e suas falácias ou de como criar um ambiente caótico e ainda ganhar dinheiro com isso



     O direitista extremo, o ultraconservador é daltônico. Só consegue enxergar em preto e branco. Faz declarações morais, como se fosse dono de um edifício ético, sem um mínimo de ponderação. Embora ele elabore máximas sobre comportamento relativo à ética na política, mente, manipula informações e cria argumentos caricatos, como por exemplo, em referência a uma iminente invasão do exército da União das Repúblicas Federativas Soviéticas no Brasil – ainda existe? – Para o reaça, os meios justificam os fins, ou mais especificamente desqualificar o pensamento progressista, que para este sacerdote da ética, corroem a moral e os bons costumes.

     Um ponderado esquerdista pode e deve se revoltar com o triste episódio da Ditadura Militar no Brasil na década de 1960. Aliás muitos intelectuais, estudiosos, políticos ponderados de centro e de direita se revoltaram, pois o regime de exceção calava toda a sociedade. Há incontáveis livros, artigos, resenhas e teses que explanam e analisam aquele triste cenário da alcunhada “Revolução de 1964”. Para minimizar os efeitos da verdade histórica, o coxinha faz um paralelo com a Cuba atual. O regime daquele país tem respaldo popular, ainda que haja a necessidade de eleições também na ilha. Mas no caricato argumento do fascista, não se pode ter aspectos positivos em governos de cunho socialista como o de Cuba, ele convenientemente não enxerga na resistência dos cubanos aos Estados Unidos da América, a altivez e a autoestima que tanto nos faz falta como povo. 

     Um ultradireitista relativiza com um sinal de aspas o termo “trabalho escravo” nas fazendas brasileiras, cotejando à maneira esquizofrênica este absurdo, herança do coronelismo brasileiro de estampa nova, com a situação dos médicos do programa federal “Mais Médicos”. Singular a novela protagonizada pela médica cubana, servindo-se do coronel Caiado (este travestido de cupido) para fugir para Miami encontrar com seu amado. Comédia romântica, ora! Com o vazio discurso da desconstrução, o reaça tenta sabotar um programa que leva médicos para atender a população carente nos rincões do Brasil, com o simples objetivo do quanto pior para a população, melhor para a oposição. Sinal que estes extremistas estão ao lado das políticas de Estado?! 

     E como não enxergar o preconceito do reaça a um ex-presidente de hábitos tão próximos ao brasileiro médio, embora seu governo tenha promovido a ascensão social de milhões de pessoas oriundas das classes “D” e “E”?! O reaça enxerga a cachaça como coisa de pobre e refere-se ao metalúrgico de forma pejorativa ao comentar seu gosto pessoal. Ademais, o sacerdote dos bons costumes ainda faz repercutir um boato, com tom moralista, relativo a supostas relações íntimas dele?! Talvez lhe preocupe as roupas de baixo do ex-presidente, vá saber?!

     A despeito de qualquer lógica referente ao respeito que deve-se ter a soberania de qualquer nação, a autonomia de seu povo e da própria opinião pública em escolher o regime político que lhe aprouverem, o fascista repaginado louva o embargo norte-americano à Cuba. Alardeia o fracasso socialista, embora tal teoria tenha sido desenvolvida para demonstrar os males que o liberalismo econômico imputa às nações mais pobres. O capitalismo é voraz, não é humanista. Contudo, o reaça, filhinho de papai e mamãe, cevadinho que é, ignora oportunamente que os EUA tem própria proteção social e programas para redistribuição de renda para minimizar as acentuadas diferenças sociais do seu país. 

     Um crítico de centro, de direita ou de esquerda, que tenha compromisso com o ser humano e que seja ponderado e tenha apreço ao bom senso, não pode, ele DEVE execrar uma jornalista que incite a violência. Todavia o reaça faz um paralelo tosco com os movimentos sociais, que são passíveis de críticas quando se excedem. Naturalmente eles devem respeitar os limites legais também, mas a partir disso, o coxinha qualificar todos os movimentos sociais como criminosos, é exercer a liberdade de opinião com a isenção necessária? Não há legitimidade nas pautas defendidas pelos movimentos sociais?! Agora, para o coxinha-reaça, jornalista incitar a violência em rede de televisão de canal aberto, fomentando a irracionalidade e o ódio, aí sim pode!

     Um sujeito de esquerda ponderado procura entender as razões que levaram uma pessoa a delinquir, sobretudo se as condições explicam isso. O que não justifica a sua transgressão, logo a pessoa deve responder pelo que fez. O reaça ao asseverar que com isso o esquerdista desrespeita a pessoa humilde que está dentro da lei, está sendo desonesto em seu argumento. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é, definitivamente, outra coisa.

     O cidadão de esquerda pode sim repudiar o comportamento do “rei do camarote”, um sujeito que não se peja em se comportar como nababo de fato, apresentado em reportagem divulgada pela ilibada revista Veja, semanário predileto do coxinha. E por que não aplaudir um homem de origem humilde e sem formação acadêmica que ganhou diversas comendas de doutor honoris causa pelo mundo e recebe pelas palestras aquilo que lhe acham justo pagar, ou artistas que acumulam riqueza com o seu trabalho?! Se lícita a forma com que estes personagens ganham dinheiro, o que fundamenta a tal queixa enviesada do reaça que o esquerdista moderado não poderia aplaudi-los?! Por que são alinhados com a esquerda?!

     E a propósito de outra pérola tecida pelo argumento coxinha, cujo fundamento tem como premissa a ironia em afirmar que qualquer artista, independentemente de ter formação acadêmica, se for de esquerda, já tem o preparo para opinar, sem constrangimento, sobre qualquer assunto?! Isto é um consenso?! Ou, em verdade, o coxinha está a se fazer de coitado, vitimando-se?! Tadinho... Não existem artistas de direita engajados ou eles simplesmente não tem consistência em suas críticas e não gostam de posar de canastrões para a opinião pública?! Estes artistas deveriam ter assessoria do coxinha, que não se importa em ser verdadeiro ou não, o negócio é fazer colar as balelas...

     Em mais recente crítica ao discurso encampado contra o racismo, como insinua o reaça à maneira caricata, que chama à atenção ao jovem negro preso ao poste pelo pescoço, pois a sua cor é reiteradamente repetida pelos militantes de esquerda de maneira até patológica. E por que não poderia o esquerdista chamar à atenção a algo amplamente comprovado com estatísticas em diversas pesquisas senão a violência contra a maioria da população de pele negra, parda e mulata?! Na abalizada opinião do coxinha não seria patológico o racismo no Brasil?! E depois, em mais uma pirueta argumentativa, anexar às falácias suas, a expressão genérica “acusar a todos que condenam as cotas raciais de “racistas” e logo depois descascar Joaquim Barbosa”, numa cínica insinuação?! 

     Um esquerdista ponderado, assim como outros militantes de outros vieses políticos, podem ter opiniões apaixonadas e se excederem-se ocasionalmente. Todos eles responderão se ultrapassarem o limite do respeito. A opinião contrária de um conservador ponderado cotejada à de um progressista equilibram as forças políticas na sociedade. Contudo ao reaça interessa tão somente a exacerbação dos ânimos, ele não quer o consenso. Ele almeja o caos, esse é o seu intento!

     O esquerdista de bom senso deve se indignar pelos excessos da polícia e os dos movimentos sociais aos quais pertencer ou não. Os extremismos só fazem desacreditar a pauta das reivindicações, ele sabe disso. Mas o coxinha-reaça quer atrelar a quaisquer legítimos protestos e queixas dos movimentos aos atos de vândalos mascarados que têm o intuito de bagunçar para que a opinião pública coloque-se contra as demandas sociais. 

     Um esquerdista moderado não precisa concordar, e nem cola imputar-lhe “um esquerdista pode”, pois ele reflete a respeito daquilo que reivindica e quaisquer atitudes que julgue exageradas, erradas ou injustificadas pode discordar. E discorda. Tentar sobrepor a ideia que os blac block’s (espécie de Hidra, monstro da mitologia grega com várias cabeças), manifestantes mascarados que mais incitam a baderna e menosprezam o respeito aos bens públicos, com os camisas negras de Mussolini que badernavam em favor deste, demonstra de forma cabal o pensamento do cevadinho reaça. Atos assim são típicos da extrema-direita, como na ocasião do atentado no Riocentro, dia primeiro de maio de 1981, quando agentes da ditadura tentavam sabotar um evento em alusão ao dia do Trabalhador. A alusão aos camisas negras, na verdade trata-se de ato falho, atribuído à vontade, ao desejo, ao impulso libidinal do coxinha-reaça de torcer pela bagunça e ver-se em sonhos, no retrato em preto-e-branco, ao lado do ícone fascista. 

     Assim, com as maiores vitrines e microfones abertos para si, o coxinha-reaça potencializa seu discurso catastrófico, apocalíptico, do fim dos tempos mesmo. Como o oligopólio da mídia, com seus Rupert Murdoch’s versão canarinho, gostam é de grana e não se importam em vender factoides construídos por coxinhas. Empresários da mídia repercutem bobagens do coxinha-reaça de bochechas rosadas pois polêmica, seja verdadeira ou não, vende. 

     O coxinha-reaça de bochechas rosadas, enfim, oferece em todas as fotos aquele sorriso velhaco, de quem tem certeza que enrolar o povão com falácias é fácil, basta demonizar qualquer pauta da esquerda. E se discordarem dele, vitima-se, pois ainda assim pode fomentar o ódio aos comunas que querem amordaçá-lo negando-lhe o monopólio da verdade mais cristalina. Enfim, acho que não entenderam... O coxinha-reaça é Deus!


domingo, 11 de agosto de 2013

As peripécias de uma espécie de corporativismo

      Passo perto de um posto de saúde no Recanto das Emas. O dia começa preguiçoso e preguiçosa avança a razoável fila para o atendimento de pacientes. Idosas, crianças e grávidas em sua maioria. Conheço este posto. Quase sempre ele tem apenas um, quando muito dois médicos atendendo. Não são poucas as ocasiões que não há médicos e as enfermeiras e auxiliares desdobram-se para suportar a demanda.
       É relevante destacar que o Recantos das Emas é uma Região Administrativa do Distrito Federal, mais popularmente conhecida por aqui como uma cidade satélite. Ela está a poucos quilômetros do centro do poder, contudo a falta de médicos, reitero, é comum por aqui. Ao lado do posto estão finalizando a construção de uma UPA, Unidade de Pronto Atendimento, mas será que os médicos virão para esta região, como em outras no entorno e nas outras cidades satélites mais afastadas de Brasília?
       Vejo nas redes sociais declarações do tipo "estou a favor dos médicos brasileiros de forma irrestrita", sem uma ponderação a respeito daquilo que eles questionam. Eles estão certos em tudo o que questionam? Não colocarei ponto por ponto o que eles pensam, mas questiono como eles fazem isso. Quer dizer que o Brasil não precisa de médicos, pois conforme estatísticas eles só estão mal distribuídos. Então está fácil, basta alocá-los nas regiões mais carentes, todavia e o direito consagrado de ir e vir? Não se pode obrigar a pessoa a morar onde ela não deseja. Assim seja, busque-se outra opção, médicos do exterior, qual o problema? Um golpe comunista? Argumento tosco e risível, mas há quem tente fazer colar uma bobagem destas.
   

            Outro argumento comum (juntamente com imagens de taperas, casas velhas entre outros lugares lúgubres onde os médicos irão trabalhar)  é dizer que os médicos "certamente" terão péssimas condições nos rincões do Brasil. E as UPA's que estão por aí, inclusive no Recanto das Emas? Aliás, os protestos dos médicos baseiam-se naquilo que vai acontecer? O governo não se importa que estejam em falta nos hospitais de todo o país materiais de uso básico como gazes, luvas cirúrgicas e seringas, por exemplo? O governo nunca terá boa vontade coisíssima nenhuma? Os governos municipais e estaduais indiscutivelmente repassam as verbas recebidas da União para a saúde?  Eles, os médicos dos protestos, perderão os empregos públicos, já que nenhum deles trabalha na iniciativa privada? 
         Há alguns anos uma professora doutora da UnB, da Análise Crítica de Discurso, em um trabalho inovador à época (década de 1980), entrevistou vários médicos do serviço público e fez observações de caráter etnográfico em sua pesquisa e constatou, grosso modo, que os médicos consideram-se donos da vida e da morte e fazem as escolhas que acham adequadas à cada situação. Alguns beiravam, à época destaco mais uma vez, a megalomania.  
           Não sei se isso mudou muito hoje em dia, nem o quanto mudou e se há exagero em interpretar esses fatos como eles se apresentaram e cotejá-los com os protestos dos médicos para tentar entender o que se passa. Entretanto não há como não constatar, de forma geral, que médicos tal qual advogados e jornalistas consideram-se pessoas diferenciadas, em instância superior aos mortais e aquilo que entendem ser o certo  por eles é inquestionável! 
            Uma jovem mãe gestante sai do posto satisfeita e a fila está bem menor hoje no posto da cidade satélite do Recanto das Emas. Posso apostar que hoje vieram dois médicos...  

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O estouro da boiada:o ressentimento coletivo e o oportunismo da oligarquia midiática

          Cabe a cada um tentar entender o que ocorre no Brasil, à sua maneira, nos últimos tempos. Contudo é temeroso o que fazem determinados agentes, ou melhor, editoriais e jornais televisivos, que mais confundem do que ajudam a elucidar o que acontece. A explosão coletiva de ressentimentos quanto à ineficiência do Estado como um todo (país, estados e municípios), muito parecida a um estouro de boiada, fez com que alguns entes na sociedade repensassem seus discursos políticos.


          A aparente mudança, por exemplo, de rumo da Rede Globo, e seus asseclas de sempre, sempre preocupados com a grana investida e sem nenhum escrúpulo ou coerência em suas posições ideológicas, não surpreende. O que importa é a manutenção do status quo e a sua posição de capitão do mato contra àqueles que querem de verdade uma sociedade mais justa. O que o Jabor declarou antes em um jornal televisivo, que achava que aqueles jovens que protestavam em São Paulo contra o aumento das passagens de ônibus eram a caricatura violenta da caricatura de um socialismo da década de cinquenta, espelha o que eles são e o posterior pedido de desculpas é a hipocrisia estampada deles.
          Grande parte do que ocorre, para o bem e para o mal, é a rápida transmissão de informações, verdadeiras e/ou erradas e/ou manipuladas ao interesse do capital e poder. Conversa de marxista cansado? Não! Enquanto houver diferenças sociais tão acentuadas, não se pode aceitar a receita do establishment. A não ser que, tal qual o personagem da obra de Machado de Assis o puxa-sacos José Dias, a mais antiga parcela da população da classe média prefira continuar a lamber as botas dos marinhos e dos civitas da vida e lamentar essa imensa quantidade de ignorantes que ascendeu socialmente. Agora os "Josés Dias" tem de conviver com essa gente iletrada e agora, pasmem, comprando carros zero e ainda entulhando os aeroportos. Um absurdo!
          Há também nossa grande culpa: não prestamos atenção àqueles que elegemos para o congresso e para as câmaras estaduais e municipais. Concordo com a observação pessimista de um amigo que diz que os vereadores, deputados e senadores eleitos refletem a nós mesmos. Nossos interesses, menores do que os da sociedade como um todo, são colocados em primeiro plano. Tudo bem, se não há prejuízo aos outros, mas não é o que acontece. Quando visualizamos uma oportunidade acontece uma cegueira moral e racionalizamos, a nosso favor é claro, quaisquer vantagens que teremos em detrimento da maioria. E não se espante, isso é comum e acontece a qualquer pessoa. Enquanto não amadurecermos moralmente a nossa política a partir de nós mesmos, não votaremos melhor coisíssima nenhuma! Reitero: é nossa culpa também estarmos onde estamos politicamente.


sábado, 18 de agosto de 2012

O excesso de informações como uma das causas da desinteligência vigente ...

Refletindo a contemporânea paranóia


        Incomoda-me pensar que somos ratos presos a um sistema cada dia mais controlado (embora paradoxalmente aberto), devido especificamente às evoluções tecnológicas que facilitam o trânsito e a repercussão das informações. Isso não deveria ser ruim, porém não é o caso, sobretudo em um país que não tem desenvolvida e cultivada a cultura da discussão democrática. Quem tem jornalão e grana, mesmo fazendo pose de bonzinho, quer é mais grana. Logo, as informações viajam na velocidade da luz, assim como a injeção de grana dos donos dos jornalões e da mídia que não prezam  o esclarescimento do fato em si, e sim que versão do fato os tornarão mais ricos e poderosos ainda.
          Ainda que me digam que os cursos superiores de jornalismo orientam-se pelo fato, matéria prima que deve ser explorada não pelos seus fins econômicos e sim pela elucidação adequada das notícias e os comentários equilibrados em relação aos diversos temas (polêmicos ou nem tanto), o capital quase sempre vence o bom senso, deturpando a informação a seu favor.
  



           E de maneira "global", quem nos pauta não se interessa pelo análise crítica e ponderada de nossa "época", contudo grita aos quatro cantos e quer que a gente "veja" tão somente aquilo que os interessa. Ou por fim, faz com que na marra aturemos as mesmas "caras" em detrimento da exploração de celebridades e sub-celebridades, com ou sem anuência destas pitorescas criaturas de plástico...
            A despeito dos trocadilhos infames que fiz, o espaço cedido à imprensa pertence à uma minoria poderosa que faz o que bem entende, espalhando aos quatro ventos que pensa o melhor para a nação, mas a perspectiva é sempre a mesma: apenas a deles. No fundo, no fundo... ou melhor, não é preciso ir tão fundo assim, o negócio deles mesmo é dinheiro!
       

sábado, 17 de março de 2012

Há uns anos escrevi este texto como protesto ao paternalismo do colégio em que trabalho. Não posso negar que muita coisa mudou para melhor, mas o paternalismo...

A difícil percepção dos limites

      As mudanças ininterruptas, e até abruptas, proporcionadas pela “pós-modernidade” ou “globalização” ou “modernidade tardia” ou quaisquer expressões cunhadas (tantas que são) com o objetivo de tentar conceituar o que vivemos, talvez conotem as dificuldades que temos nas relações interpessoais. A referência é genérica no que tange as relações como um todo, contudo tem uma origem específica no que se entendia como família antigamente e o que se entende por família nos dias de hoje. A noção mais remota nos dava a ideia de indivíduos unidos pela mesma origem biológica e, sobretudo havia um caráter sacralizado pelos valores culturais herdados, isto é, as pessoas respeitavam, de forma inequívoca, mãe e pai, avós, tios, etc. Acontece que, hoje em dia a noção mostrada por pesquisas de diversas áreas das ciências humanas apresenta a ‘família’ como “aquelas pessoas com que a gente pode contar”. E infelizmente nem a família e nem a escola se prepararam para essa mudança que atingiu-nos em cheio, e com muito mais força os jovens e as crianças. 
       A referência a nova percepção de família, embora traga consigo algo que pareça a concepção anterior, pelo menos no que concerne às relações entre esses entes ou “parentes”, apenas reflete a “areia movediça” que se transformou o que antes era uma base firme, ou como muitos gostam de dizer “a célula mater da sociedade”. Entretanto a antiga família anda se eximindo da responsabilidade de acompanhar seus filhos, e de maneira deliberada ou inconscientemente, no que é menos doloroso crer.
       A sociedade “moderna” exige que não apenas o pai, como também a mãe sejam provedores das famílias. Para tanto, ambos se sujeitam a quarenta horas semanais ou mais em seus trabalhos, o que inviabiliza a relação entre pais, mães e filhos(as). Os filhos, de famílias um pouco mais afortunadas, sentam-se por horas diante de tv’s ou computadores e logo começam a se transformar em pessoas que seus pais desconhecem.  Os quartos desses jovens lembram solitárias, em que eles se enclausuram a procura de algo que nem mesmo eles sabem bem o quê, e isso quando eles não buscam uma fuga literal da realidade... aos menos afortunados, menos sorte ainda.
        A escola recebe essas crianças e jovens em condições mais ou menos semelhantes e por conta de uma inabilidade institucional, sobretudo em não entender as suas atribuições em relação aos estudantes, acaba por ultrapassar um limite perigoso e tênue. O limite, difícil de estabelecer é: qual o papel da família e qual é o papel da escola na educação das crianças e dos jovens? Em um dos artigos antigos de pedagogia, creio que seja do Dewey, ele cita os pilares da educação que são para ele: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Todos esses fundamentos são trabalhados (ou deviam) na escola, mas a família é que fornece os primeiros valores desse novo ente na sociedade.
       A escola é uma ponte da família à sociedade, logo além de preservar os valores éticos e morais daquela pequena comunidade, ela também deve ensinar o respeito à diversidade e como agir na adversidade. Acontece que a família possuía um papel mais ativo na formação dos seus filhos o que não acontece atualmente. É importante ressaltar que a ausência da mãe talvez seja a causa mais preponderante, como também é importante que o pai hoje se responsabilize de uma forma diferente das gerações anteriores. O que interessa é que o sistema “obrigou” a família a delegar as funções de pai e mãe e/ou responsáveis à escola. E estes mesmos pais e mães exaustos, por conta do esforço diário em seus empregos, convenientemente cobram da escola aquilo que lhes parece justo, logo que a instituição se responsabilizou. Justo lhes parece, mas não é.
        A escola tem suas obrigações, todas escritas e regulamentadas sob a letra fria da lei, embora o bom senso deva reinar quando se trata da educação dos nossos filhos. Veja bem: nossos filhos. A instituição escolar, além de responsabilizar-se pela educação, deve também proteger seus alunos(as) de possíveis danos físicos, morais e psicológicos ou alertando os responsáveis (que até podem ser mãe ou pai) ou os órgãos públicos competentes.
Entretanto mesmo a escola não conseguirá proteger seus estudantes das fatalidades das nossas perigosas cidades em todos os momentos, a não ser através de uma presença ostensiva o que não é, absolutamente, competência dos educadores, a não ser que estes sejam onipresentes. Claro que há percalços que a instituição educacional pode alertar estudantes e famílias, como perigo do envolvimento com drogas, por exemplo, mas esse alerta tem suas limitações. E tais limitações são perceptíveis para o professor no momento em que ele(a) se encontra em uma encruzilhada que pode ser a seguinte: de um lado uma família ausente ou problemática; do outro a instituição que cobra uma atitude, embora ela mesma tenha suas dúvidas a respeito do que fazer; e enfim o Estado, que em um jogo de “empurra” só aparece quando há bônus, e quando há ônus como em um passe de mágica, é abduzido. Para onde ir?!
      O salvacionismo é uma ideologia que o Estado prega de forma disfarçada, também para eximir-se de suas responsabilidades. São até bonitas as atitudes isoladas de cidadãos veiculadas na mídia, bem intencionados, diga-se de passagem, que são voluntários em colégios e ONG’s de todo o Brasil. Todavia aí é que o Estado se coloca, nessa brecha em que de repente ele se torna o protagonista da boa ação, como também desaparece quando lhe é conveniente.
     Há trabalhos de naturezas diversas que demandam esforços diferentes, e mesmo a ajuda de responsáveis, mães e pais. Aqueles mesmos que não têm tempo quase nunca. Daí surge uma das divergências entre professoras/professores e família, isto é, o responsável chega a sugerir o fim dos trabalhos em grupo, se o docente não estiver literalmente ao lado de seu filho.
                            
 
                                                           
     

     Na antiguidade e na idade média a nobreza possuía como um de seus luxos um preceptor, isto é, um professor particular para o seu filho que além de cuidar do ensino das “letras e das matemáticas”, acompanhava-o  onde quer que o infante fosse. Dom Pedro II, como era um príncipe, teve um preceptor. Se a ideia do colégio é essa, tendo em vista o nome ser uma a homenagem àquele imperador, seria adequado que o quadro de professores fosse mais numeroso...
   Outro problema, que é recorrente, é a burocratização extrema em que vivemos. Alguns administradores dirão que isso é até benéfico, embora isso apenas reflita sim a desvalorização dos educadores, sobretudo na desconfiança da comunidade escolar...
     Enfim, as relações interpessoais estão corroídas. Mães, pais, responsáveis e educadores precisam relembrar daquelas concepções de família e de professor(a) dos nossos pais e avós, contudo adaptando-as aos novos conceitos e comportamentos, e certamente com uma maior participação paterna na educação dos(as) filhos(as). E há quem imagine que seja fácil criar um filho? Nunca foi fácil, e talvez sejam os tempos mais difíceis para tal empreendimento...
   Desculpem-me a palavra empreendimento, talvez seja o capitalismo, a globalização, a pós-modernidade, a modernidade líquida, o fim da história...

07/10/2008 Cassiano Barra

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Vou me arriscar em veredas estranhas...


Flashes

Mesmo incerto insistiu,  
Sabotou-se e só quis fugir.
Foi à fornalha da noite,
Foi ao fundo, afogar delírios
Em más delícias resolveu viver.

Sua língua ácida amarga
Um beijo na penumbra. Sob
Os lábios rubros penitentes
Luzes vermelhas refletem uma
Boca cálida, um ritual candente.

 
Saciado e aflito saiu assim
Mesmo, sujo do inferno.
O apagar tarda seu conflito
E vivo e mais vadio tem fome
E se consome no amanhecer.

Mas a cada dia, a noite recomeça
Mas a cada noite, a noite encurta
E a cada apagar, a noite escura
Sina ainda mais obscura à
Procura do que não se procura.

Xangô