Passo perto de um posto de saúde no Recanto das Emas. O dia começa preguiçoso e preguiçosa avança a razoável fila para o atendimento de pacientes. Idosas, crianças e grávidas em sua maioria. Conheço este posto. Quase sempre ele tem apenas um, quando muito dois médicos atendendo. Não são poucas as ocasiões que não há médicos e as enfermeiras e auxiliares desdobram-se para suportar a demanda.
É relevante destacar que o Recantos das Emas é uma Região Administrativa do Distrito Federal, mais popularmente conhecida por aqui como uma cidade satélite. Ela está a poucos quilômetros do centro do poder, contudo a falta de médicos, reitero, é comum por aqui. Ao lado do posto estão finalizando a construção de uma UPA, Unidade de Pronto Atendimento, mas será que os médicos virão para esta região, como em outras no entorno e nas outras cidades satélites mais afastadas de Brasília?
Vejo nas redes sociais declarações do tipo "estou a favor dos médicos brasileiros de forma irrestrita", sem uma ponderação a respeito daquilo que eles questionam. Eles estão certos em tudo o que questionam? Não colocarei ponto por ponto o que eles pensam, mas questiono como eles fazem isso. Quer dizer que o Brasil não precisa de médicos, pois conforme estatísticas eles só estão mal distribuídos. Então está fácil, basta alocá-los nas regiões mais carentes, todavia e o direito consagrado de ir e vir? Não se pode obrigar a pessoa a morar onde ela não deseja. Assim seja, busque-se outra opção, médicos do exterior, qual o problema? Um golpe comunista? Argumento tosco e risível, mas há quem tente fazer colar uma bobagem destas.
Outro argumento comum (juntamente com imagens de taperas, casas velhas entre outros lugares lúgubres onde os médicos irão trabalhar) é dizer que os médicos "certamente" terão péssimas condições nos rincões do Brasil. E as UPA's que estão por aí, inclusive no Recanto das Emas? Aliás, os protestos dos médicos baseiam-se naquilo que vai acontecer? O governo não se importa que estejam em falta nos hospitais de todo o país materiais de uso básico como gazes, luvas cirúrgicas e seringas, por exemplo? O governo nunca terá boa vontade coisíssima nenhuma? Os governos municipais e estaduais indiscutivelmente repassam as verbas recebidas da União para a saúde? Eles, os médicos dos protestos, perderão os empregos públicos, já que nenhum deles trabalha na iniciativa privada?
Há alguns anos uma professora doutora da UnB, da Análise Crítica de Discurso, em um trabalho inovador à época (década de 1980), entrevistou vários médicos do serviço público e fez observações de caráter etnográfico em sua pesquisa e constatou, grosso modo, que os médicos consideram-se donos da vida e da morte e fazem as escolhas que acham adequadas à cada situação. Alguns beiravam, à época destaco mais uma vez, a megalomania.
Não sei se isso mudou muito hoje em dia, nem o quanto mudou e se há exagero em interpretar esses fatos como eles se apresentaram e cotejá-los com os protestos dos médicos para tentar entender o que se passa. Entretanto não há como não constatar, de forma geral, que médicos tal qual advogados e jornalistas consideram-se pessoas diferenciadas, em instância superior aos mortais e aquilo que entendem ser o certo por eles é inquestionável!
Uma jovem mãe gestante sai do posto satisfeita e a fila está bem menor hoje no posto da cidade satélite do Recanto das Emas. Posso apostar que hoje vieram dois médicos...
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