segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um remédio para a alegria

Finais de ano são entediantes para mim. E ultimamente tem sido pior, não subestimando a minha capacidade de tornar as coisas ao meu redor uma porcaria, mas a necessidade alucinante de parecer estupidamente feliz é um saco. Perdoem-me  a expressão aqueles de espírito mais dócil, que se dobram às superficialidades e lorotas sociais, mas há muita gente escrota a distribuir sorrisos a quem não dava a menor pelota durante o ano. É o espírito de natal.
Pra disfarçar o meu descontentamento encho a lata, encharco a caveira como diria o meu tio e me farto de razões para rir de mim, dos outros e da incapacidade de me prender a bobagens que se dizem com o costumeiro alarde consumista em cada natal e ano novo. Cada um tem uma fuga da realidade que lhe convém, logo se explica essa inveja enviesada, que ao cabo desse lenga-lenga não passa mesmo é de um estratagema cretino.



Ouvi outro dia um psicologismo meio barato, que enfim, acabo por usá-lo. Quase não há tristeza na ingenuidade. Assim Papai Noel parece mais legal enquanto esperamos por presentes. Contudo desta maneira o efeito placebo apenas retarda o desapontamento ou esconde um sintoma de mediocridade.
De qualquer maneira, usando as palavras eventuais de um espírito estupidamente alegre e benfazejo repito: tenha um “Feliz Natal e um próspero Ano Novo” de novo.     



segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Acho que vou comprar uma câmera

“Se podes olhar vê, se podes ver, repara.”
José Saramago

Imagino a fotografia não como uma forma de arte convencional, mas como um furto. Embora os artistas de tal atividade, reconheço, tenham de ter não só a habilidade para manusear a câmera, devem também ter a sensibilidade para captar imagens realmente belas ou sublimes, em que nos reconheçamos diante de alguma figura qualquer inerte, mas não consigo vê-los como os artífices do belo, talvez apenas apreciadores.
Contudo mesmo reconhecendo o fotógrafo como artista, sabe-se que ele não passa de um observador atento, um gatuno que espera o melhor momento, o melhor instante para dar o bote. Roubar uma nesga de beleza para contemplá-la, usufruí-la com as pessoas, uma espécie de Robin Wood perdido nos tempos loucos das tecnologias alienantes.
Pena que esse olhar diferenciado, que prima por enxergar melhor a beleza do outro ou mesmo retratar humanamente os problemas por meio das fotografias esteja banalizado. Isto é bom e ruim. Há máquinas digitais, celulares que fotografam com maior nitidez e meios para transmitir cada vez melhor.  Contudo o que nos faz falta, não é nada além de nós mesmos. A epígrafe do romance Ensaio sobre a cegueira (Se podes olhar vê, se podes ver repara) de José Saramago, resume o que com um romance inteiro o escritor português asseverou a respeito da humanidade, ou melhor, o que  mais lhe faz falta.
Não nos reparamos inundados de informação. Estamos cegos. O espelho não nos falta, pois esse já distorceu a imagem que temos de nós e dos outros, quem quer que sejamos. A overdose imagética tornou as relações superficiais, criou imbróglios políticos, causou mortes, aumentou a audiência, rendeu muita grana a poucas pessoas que foderam muitos, nos afastou ainda mais...
É um paradoxo. Incrível como a humanidade se atrapalha de tempos em tempos com as tais revoluções tecnológicas. Talvez não haja remédio. Mas sinto saudade do ladrão de imagens. Das imagens em que esse artista capta e nos faz olhar para o outro de uma maneira menos fria. Enfim, o que nos falta é o que mais temos e menos recorremos.
Acho que vou comprar uma câmera...