segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Acho que vou comprar uma câmera

“Se podes olhar vê, se podes ver, repara.”
José Saramago

Imagino a fotografia não como uma forma de arte convencional, mas como um furto. Embora os artistas de tal atividade, reconheço, tenham de ter não só a habilidade para manusear a câmera, devem também ter a sensibilidade para captar imagens realmente belas ou sublimes, em que nos reconheçamos diante de alguma figura qualquer inerte, mas não consigo vê-los como os artífices do belo, talvez apenas apreciadores.
Contudo mesmo reconhecendo o fotógrafo como artista, sabe-se que ele não passa de um observador atento, um gatuno que espera o melhor momento, o melhor instante para dar o bote. Roubar uma nesga de beleza para contemplá-la, usufruí-la com as pessoas, uma espécie de Robin Wood perdido nos tempos loucos das tecnologias alienantes.
Pena que esse olhar diferenciado, que prima por enxergar melhor a beleza do outro ou mesmo retratar humanamente os problemas por meio das fotografias esteja banalizado. Isto é bom e ruim. Há máquinas digitais, celulares que fotografam com maior nitidez e meios para transmitir cada vez melhor.  Contudo o que nos faz falta, não é nada além de nós mesmos. A epígrafe do romance Ensaio sobre a cegueira (Se podes olhar vê, se podes ver repara) de José Saramago, resume o que com um romance inteiro o escritor português asseverou a respeito da humanidade, ou melhor, o que  mais lhe faz falta.
Não nos reparamos inundados de informação. Estamos cegos. O espelho não nos falta, pois esse já distorceu a imagem que temos de nós e dos outros, quem quer que sejamos. A overdose imagética tornou as relações superficiais, criou imbróglios políticos, causou mortes, aumentou a audiência, rendeu muita grana a poucas pessoas que foderam muitos, nos afastou ainda mais...
É um paradoxo. Incrível como a humanidade se atrapalha de tempos em tempos com as tais revoluções tecnológicas. Talvez não haja remédio. Mas sinto saudade do ladrão de imagens. Das imagens em que esse artista capta e nos faz olhar para o outro de uma maneira menos fria. Enfim, o que nos falta é o que mais temos e menos recorremos.
Acho que vou comprar uma câmera...                                             



Nenhum comentário:

Postar um comentário