quinta-feira, 20 de março de 2014

Da paranoia coletiva, ou de como deturpar a realidade com fins fascitas

       Tenho lido muita coisa na internet e não há  como não se  assustar da maneira como uma parcela considerável de pessoas se expressa, a despeito do que cada uma interpreta como ideal político-democrático. Ao fazer uso de reducionismos toscos de uma realidade tão complexa como a brasileira, cometem desatinos e insuflam a sanha fascista de maneira deliberada ou não (esperança...). Há de tudo para todos os gostos.
       A mais recente estratégia - não sei se o uso da palavra "recente" estabelece mais ou menos uma novidade em relação ao modus operandi dos ultradireitistas - é tentar fazer colar o slogan da "Revolução de 1964". Os governos militares, com anuência de parte da igreja católica e de uma classe média extremamente conservadora quanto à redistribuição socioeconômica (representada de forma justíssima por uma oligarquia midiática com sua matriz na cidade de São Paulo e Rio de Janeiro), teceram uma narrativa de um ambiente de caos nacional naquela ocasião. O senso comum, àquela altura, reverberara a fofoca que os comunistas comiam criancinhas. Neste terrível ambiente, ignoravam, ou melhor escondiam, por exemplo que João Goulart tinha amplo apoio popular (conforme revelado por documentos de instituto de pesquisa, o IBOPE). Já naquela época escondiam informações e forjavam suicídios, como no caso lamentável de Vladimir Herzog.





       Hoje esta estratégia está mais complicada, pois basta um pouco de disposição para pesquisar que informações deturpadas, imagens de cenas coladas a notícias que não têm referência uma com a outra, discursos de ódio engajados a justificar a violência contra àqueles que não podem se defender, estão um pouco mais difíceis pra colar.
       O ultradireitista é um sujeito engajado em tão somente destruir quaisquer pensamentos progressistas. Para ele, que é um sujeito pertencente a uma casta superior, pessoa acima da média e privilegiado pelo dom da sua inteligência, o pensamento da esquerda lhe ultraja. Tais progressistas, para ele, oferecem espaços para pessoas não pensantes, ignorantes mesmo, que não devem ascender socialmente, pois não sabem se comportar nos aeroportos e shopping's.
        Há algum tempo, uma tal de Sheherazade, leitora de teleprompter, a despeito das pessoas poderem discordar das suas observações, disse que lhe atacavam o direito de se expressar. Falácia. Ela, como eu, e como qualquer pessoa, diz o que quiser dizer. No entanto, em sociedade, a minha liberdade de dizer até invencionices, esbarra em alguns obstáculos. E isso é bom, pois é democrático ao respeitar o outro ser humano. 
       Não posso, por exemplo, alegar que o Papa me roubou (isto é hipotético, camaradas litigantes da linguagem denotativa) e depois que as pessoas apresentarem seus argumentos contrários aos meus, fazer beicinho e dizer que não estão respeitando o meu direito de expressão. Isto é um argumento cretino.  
       Essa moça incitou a violência e não usou meias palavras, quando declarou de forma peremptória, que trinta homens ao prender um jovem negro de quinze anos, com uma tranca de bicicleta passada no seu pescoço, prendendo-lhe a um poste e nu estavam fazendo justiça. E em outro feliz comentário, justificava as "estripulias" de Justin Bieber com uma advertência doce de uma titia, amável com seu pobre menino rico que está "apenas crescendo"...
       Há um outro, de nome Constantino, que com ironia, se diz coxinha e critica a turba que não sabe se comportar em shopping's, pois estes  lhe têm inveja e invejam as patricinhas e mauricinhos. Conforme o indigesto fofinho, há uma etiqueta que a gentalha não aprende. Triste ele não ter percebido ainda, pois obnubilado, não brincou em quintais quando criança, soltava pipas no ventilador e com dieta de macdonald's, certamente nunca virou o pescoço para o lado de fora da vitrine da lanchonete norte-americana. 
  Para não tornar a lista infindável - pois ainda poderia citar malafeios, bolsonetes e felicianos - e sem nenhuma pretensão metodológica e/ou classificatória,  à revelia de vários anjos salvadores, com mensagens advindas do céu da UDN, não poderia deixar o Lobinho(ão) de fora. Ele, com sua pelagem de burguês escovada e tosada, passou a membro notório da teoria da invasão socialista. Sem nenhum traquejo diplomático, sem cátedra universitária de Ciência Política ou coisa que o valha, ganhou a vitrine do Roda Viva. Neste programa de canal público - ainda que alegue outra teoria conspiratória de que não dão espaço nem voz a quem seja de oposição no Brasil - solta as suas ofensas e críticas com o destemor de quem tem anuência dos barões da mídia, tendo ao seu redor jornalistas passivos ao discurso frenético e descabido. Não precisa ponderar nada. Está dispensado desta tola burocracia inventada pela "esquerda caviar", pois não precisa (e não quer) de interlocutor, precisa de ouvidos abertos, prontos para se emprenhar pela retórica do rebelde sem causa alguma. 
                Eu até concordo com a observação do jornalista Boechat, que afirma que democracia não quer dizer que todo mundo tenha de falar as coisas politicamente certinhas, para apenas aparentar ser certinho. Mas crer que seja certo desancar as instituições, tecendo argumentos estapafúrdios como uma possível intervenção militar nos moldes daquela "Revolução de 1964", a ponto de criar um ambiente catastrófico, isso é demais. Ademais, a "Revolução de 1964", embora os milicos e as viúvas da Ditadura afirmem que aconteceu dia 31 de março, na verdade ocorreu dia 1º de abril daquele ano. Dia da mentira histórica brasileira, que tentam até hoje fazer colar que o regime de exceção era para salvar a democracia. Esses fascistas são uns fanfarrões mesmo!

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