A magia do momento
Na vida a gente aprende muita coisa inútil, mas muito de vez em quando mesmo, aprende-se com a bobagem alheia. Falo de mim, e não dos outros - me fio nas besteiras que faço. Contudo desta vez, aprendi só observando a lerdeza de um amigo.
Fiquei pensando se deveria revelar o nome do nosso anti-herói, já que ele não se importaria. Ou se se importaria, contudo nada me revelou. É, mas sem conversa fiada, o episódio se passava na faculdade de letras, em que o protagonista da nossa história passava uma temporada, assim como eu, que à época era o confidente de uma paixão avassaladora.
O Macunaíma, nomearei-o assim, em nossa narrativa era um verdadeiro atirador, embora muito pouco acertasse e no que acertava era melhor ter errado. Morenas, louras, ruivas ou mulatas ou todas ao mesmo tempo eram alvejadas pelo rapaz que tinha uma mira descalibradíssima. Eu, que sonso como sou, alimentava a sanha do triste caçador, até porque a verdade não o interessava e o deixaria triste.
A garota, sim a garota tinha acabado de chegar à faculdade e dava os ares, e outras "coisitas mas", dando a entender que era uma espécie de viúva-negra. Era uma morena grande e carnuda, bem ao tipo das rebolativas, e infelizmente sumidas, morenas do Tcham. Ele, o Macunaíma dos perdidos recantos das emas, logo que viu tamanha figura sustanciosa, não se conteve e disparou a sua descalibrada arma. Claro que a formosa dama, que já se apresentava como alvo, deu-lhe um consolo de uma pequena vitória. Mas veja bem, o consolo é coisa pouca e não aquilo que um esfomeado caçador deseja.
A partir daí, o nosso anti-herói mudou de posição. Deixou de ser o caçador e virou a criatura domada. Fazia o que a dama mandava. Acreditava em tudo que a dama dizia. Chegou a me segredar que a donzela convencera-o que ninguém havia descoberto os seus recônditos mais íntimos e ele é que seria o cara! Como já havia dito, não gostava de contrariar um sujeito que parecia tão feliz. Ora, algumas ilusões trazem alguma felicidade e não seria eu o estraga prazeres, embora desconfiasse dos tratos da moça ao carente rapaz.
Camarada, desconfiar eu desconfiava, mas daí a dizer ao jovem amante que ele procurava chifre em cabeça de cavalo, ah isso eu não ia dizer. Mas lá estava eu e a ex-patroa a almoçarmos em um shopping center em Taguatinga. Concentrava-me em apenas comer, quando a patroa me chamou à atenção.
- Amor, não é a namorada do seu amigo lá da faculdade com aquele sujeito grandão?
Quando me atentei pra cena tive de me conter pra não rir. Ela soltou de um repelão a mão do sujeito e se dirigiu a nossa mesa, com um sorriso amarelíssimo e disse:
- Oi, tudo bem com vocês? Conhecem o meu primo?
Cumprimentamos o casal e logo a dama portentosa despediu-se e levou consigo um dos sócios à época de meu amigo. Coisa de dez minutos depois, Macunaíma me ligava e perguntava-me se havia conhecido o primo de sua donzela. Até hoje não sei a razão pra tanta pressa em me perguntar a respeito do primo de sua amada. Contudo o pior estava ainda por vir.
É, e o porvir do nosso anti-herói não podia ser pior. Segredou-me outra vez, todo feliz e prosa, que a moça era realmente aquela a quem o seu coração escolhera. Chegou a tal conclusão quando, ao levá-la ao motel para deflorá-la - segundo ele - parou na entrada pois ela não se sentia pronta. Disse-lhe candidamente que, se apressassem aquilo, as coisas não seriam naturais e estragaria a "Magia do Momento". Depois daquilo ficou abobalhado à maneira dos apaixonados, o sangue não lhe chegava ao cérebro, pois se concentrava no órgão que roubara-lhe o resto de inteligência.
Tempos depois nosso amigo soube das façanhas de sua ex, formosa e generosa dama, tal qual a Geni de Chico Buarque, que oferecia suas curvas e carinhos até pra cobrador de lotação pirata. Sugeri que ele comprasse uma van e arranjesse um tapa-olho. Assim teria uma vantagem em relação aos seus sócios. Ele, com um sorriso triste e acanhado, mandou-me à merda, meio que choramingando...
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